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A região metropolitana de São Paulo reduziu em mais de 13% os índices de abandono no ensino superior. Conheça a experiência das instituições que conseguiram minimizar o problema
Por Leandro Quintanilha
“Se você quer reduzir a evasão, faça as coisas direito." A frase emblemática do professor norte-americano Vincent Tinto, da Syracuse University, Estados Unidos, parece explicar o fenômeno ocorrido na região metropolitana de São Paulo. Na contramão de uma tendência nacional, a evasão de alunos do ensino superior privado caiu 13,4% em um ano na capital paulista e nos seus arredores. O levantamento foi feito pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), ao comparar os anos de 2005 e 2006. A revista Ensino Superior procurou algumas instituições da região metropolitana de São Paulo que conseguiram reduzir um dos maiores problemas das instituições de ensino: o abandono da graduação. O levantamento do Semesp também está sendo feito no interior do Estado.
Apesar de nenhuma ter formulado um programa específico de combate à evasão, todas investiram em ações para aprimorar a qualidade do ensino e atender melhor às necessidades do alunado. A queda do abandono parece ter sido um efeito colateral oportuno. Algumas das principais ações concebidas pelas instituições de ensino superior consultadas foram aulas especiais para nivelamento das turmas (para alunos que chegam com deficiências do ensino médio), incentivo à qualificação do professor, atendimento psicológico, laboratórios equipados e programas de estágio, entre outros.
Uma política de descontos, bolsas e renegociação de dívida também entra nessa lista, mas não deve ser considerada como solução isolada. "A questão financeira costuma ser superestimada quando o assunto é evasão", afirma o professor Roberto Lobo, presidente do Instituto Lobo e ex-reitor da Universidade de São Paulo (USP). "Muitas vezes, o aluno alega problemas financeiros para se livrar do interrogatório - esta parece ser a justificativa mais aceitável para o que foi uma decisão pessoal", defende.
Segundo pesquisa do Instituto, os problemas financeiros são determinantes em cerca de 40% dos casos de evasão. Nos demais, o aluno abandona o curso "depois de um acúmulo de pequenos aborrecimentos", como a dificuldade de acompanhar o ritmo das aulas e mesmo a demora para obter um documento ou serviço da instituição. Num contexto de insatisfação, uma fila no caixa da cantina ou um elevador com defeito podem ser a gota d água. Além disso, é importante ressaltar que os reajustes nas mensalidades no ensino superior na capital paulista caíram de 9,2% em 2005 para 2,6% no ano seguinte, de acordo com os cálculos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
A pesquisa realizada pelo Sistema de Informações da Assessoria Econômica do Semesp inclui dados que as próprias instituições informaram ao Ministério da Educação no último Censo da Educação Superior. Assim, concluiu-se que, na região metropolitana da capital, a evasão ficou em 14,4% em 2006, contra 16,6% do ano anterior. Em números: 87.129 alunos abandonaram seus cursos em 2006, ante 91.411 em 2005. O êxito fica mais evidente quando comparado ao resultado paulista - no mesmo período, o Estado registrou um aumento de 3,7% da evasão.
Para o professor Roberto Lobo, um dos fatores mais relevantes para a maior permanência dos alunos nas instituições de ensino superior particulares da Grande São Paulo é a política de nivelamento. A inadequação ao ensino superior é, em geral, o desfecho previsível de um ensino médio deficiente. "A grande maioria dos desistentes abandona a faculdade do primeiro para o segundo ano", diz. "Despreparado, o aluno ouve grego por alguns meses e depois se cansa", descreve.
A Faculdade Santa Marcelina, que na pesquisa do Semesp registrou queda de 38% no índice de evasão, pratica ações de nivelamento desde a década de 80, como afirma o secretário-geral e pesquisador institucional Lincoln Villas Bôas Macena. "O programa básico do curso de Administração, por exemplo, inclui reforço de matemática e língua portuguesa." Os alunos com deficiências do ensino médio são organizados em turmas com necessidades semelhantes, para que também não se sintam desestimulados por ter de rever conteúdos ainda mais básicos do que os que, de fato, lhe faltam.
O Centro Universitário Capital (UniCapital), no qual a evasão caiu 41%, mantém ações semelhantes por meio de seus Núcleos de Apoio Pedagógico. Para o vice-reitor Adriano Augusto Fernandes Júnior, este é o meio mais eficiente de combater "a raiz do problema" da evasão.
Mas o professor Roberto Lobo também destaca a necessidade de aproximar os cursos de seu universo profissional desde o primeiro ano, que costuma ser, para frustração dos estudantes, exclusivamente teórico. "Não tenho dados que comprovem isso, mas estou certo de que a falta de motivação dos alunos é um fator fundamental da evasão", diz. Nisso, o quesito infra-estrutura pode ter também um papel importante - não apenas pela perspectiva do aprendizado, mas também pelo viés da ludicidade, uma ambientação que inspire o imaginário do aspirante à profissão em questão.
Laboratórios temáticos transportam o estudante para o cotidiano profissional. É importante, portanto, que o acesso não se restrinja aos últimos semestres do curso. Na UniCapital, por exemplo, o atendimento à comunidade na Clínica de Fisioterapia do centro universitário é uma atribuição de graduandos em fase final do curso, com supervisão de professores, mas os alunos dos primeiros semestres também podem participar, como estagiários observadores. Assim, dão início logo cedo a uma inserção gradativa nas atividades do laboratório.
A Faculdade Cásper Líbero inaugurou novos laboratórios de Rádio e TV e de Fotografia Digital pouco antes de registrar uma queda de 32% na evasão de alunos em 2006. Os já existentes também foram modernizados, como informa a diretora Tereza Cristina Vitali, como parte de um plano de desenvolvimento institucional. "Salas-ambientes equipadas com mobiliário e tecnologias multimídia adequadas para as especificidades de cada habilitação são hoje exigências pedagógicas para o ensino da Comunicação Social", diz.
Na Santa Marcelina, que combina formações tão diferentes num mesmo campus como Relações Internacionais e Música, é possível reconhecer o espaço físico de cada curso pela ambientação. Na faculdade de Moda, ateliês com máquinas de costura, mesas de desenho, manequins e até uma teciteca - uma espécie de biblioteca de tecidos. Na de Música, as salas de aula contam com quadros-negros especiais, com pauta musical, e há um aquário subdivido em diversas saletas de instrumentos com isolamento acústico. A faculdade Artes Visuais conta com uma marcenaria própria. As áreas comuns têm espaços permanentes para apresentações e exposições artísticas dos alunos, além do anfiteatro, que comporta eventos especiais.
Mas, além de entrar em contato ainda na graduação com a prática profissional que o aguarda, o aluno precisa também vislumbrar oportunidades. Na Cásper, são realizadas palestras e eventos com profissionais do mercado durante os quatro anos de cada formação. "Além disso, uma sólida política de estágios garante ao aluno seu ingresso no mercado de trabalho desde o início do curso", afirma a diretora. "Cerca de 90% de nossos alunos ingressam sem nenhuma atividade no mercado de trabalho, mas 80% se formam estagiando ou empregados", calcula.
Para Tereza Cristina, no entanto, é a qualidade do ensino que segura um estudante numa instituição. "O aluno precisa acreditar nos conteúdos oferecidos", diz.
O professor Celso Hamilton de Camargo, secretário-geral do Centro Universitário FMU, concorda que credibilidade conta. "A instituição tem se dedicado com afinco à iniciação científica, apoiando alunos que têm aptidão para a pesquisa. Nossos laboratórios são atualizados regularmente, assim como nossas bibliotecas e todos os suportes necessários para o aprendizado do aluno", diz.
Cursos concorridos e tradicionais nas instituições também costumam ter índices de evasão mais baixos. É o caso do curso de Moda da Santa Marcelina, de Jornalismo na Cásper e Direito da FMU.
Apesar de superestimada, a questão financeira não pode ser relegada. "Como soma 40% do total, continua sendo um motivo relevante", pondera o professor Lobo. E, portanto, merece a atenção das instituições de ensino.
Todas as quatro instituições ouvidas pela revista têm programas de descontos, parcelamento de dívidas e bolsas. Na Santa Marcelina, cerca de 40% dos alunos contam com algum nível de desconto, de 10% a 100%. Todas as quatro instituições também afirmam manter programas de estímulo à qualificação dos professores, com planos de carreira e bolsas de mestrado e doutorado, inclusive.
No combate à evasão, o bem-estar do estudante no ambiente acadêmico também é determinante, como ressalta o professor Roberto Lobo. "O aluno não pode ser tratado como bandido só porque está com as mensalidades atrasadas - o próprio fato de deixar de pagá-las pode ser indício de falta de motivação." Na UniCapital, a cobrança, que ficava a cargo de terceiros, foi internalizada, para que cada aluno receba um tratamento "pessoal e diferenciado", e a negociação flua mais depressa e com menos constrangimentos.
Este é outro ponto comum entre as campeãs da baixa evasão: manter o número das turmas baixo. A Cásper informa que não pretende mais ampliar seu número de alunos. A Santa Marcelina afirma que suas turmas têm, em média, 40 pessoas - que costumam ser divididas em duas subturmas nas aulas práticas. A instituição ainda mantém sessões de atendimento psicológico gratuito para alunos. "Todos são bem-vindos, mas é um espaço especialmente importante para o estudante que vem de fora, e não pode contar com o apoio da família no dia-a-dia", afirma o secretário-geral Lincoln Macena.
Fonte: Revista Ensino Superior (nº 118 - julho de 2008) |